quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Berro

Nasci, não abri a boca para berrar, respirava com dificuldade. O médico deu uma palmada na minha bunda e eu nada, nem um pio.
Deve ter sido o choque de sair do útero, passar pela vagina e abandonar aquela calma escuridão, a água que envolvia meu corpo, tão morna, as vozes que soavam baixinho, muito diferentes do ambiente daqui, agitado, até gostei.
Finalmente respirei, soltei um berro com vontade, estridente o bastante para quebrar uma taça de cristal, se tivesse uma na sala de parto. Bastou esse berro para que meu pai sonhasse em ter a filha como uma estrela da ópera, típico sonho de um homem apaixonado pelas montagens de Carmen, Don Giovanni, Madame Butterfly, entre outros.
Já minha mãe era o oposto, antes de descobrir que estava grávida, isso foi há cinco meses, ela curtia muito rock’n”roll e heavy metal, depois fez uma pausa. Os opostos se atraem.
Tudo acontecia muito depressa nesse novo mundo. Papai já fazia planos para a minha carreira como cantora lírica, vai sonhando... Minha mãe descansava e só pensava em obter notícias sobre o meu estado de saúde, mas logo fui levada ao seu encontro e meu pai ainda fazia seus planos.
“Eu nem mamei ainda e ele já quer que eu troque o seio materno pelos teatros do mundo, nada disso”, pensei.
Fui levada de volta à minha pequena casa temporária, um ambiente muito calmo, calmo demais para mim, por quê não colocam uma musiquinha tipo heavy metal?
Já pensei no meu futuro. Quando eu crescer, vou montar uma banda de garagem, fazer turnês pelos bares apinhados de bêbados, onde ninguém liga para quem está tocando, mas ainda assim ganhamos uns bons trocados. Participar de festivais, viver do heavy e do som do metal quando é dedilhado, do volume alto, do berro...Ah! por falar nisso, vou começar a berrar a fim de exercitar minhas cordas vocais.
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