quinta-feira, 3 de março de 2011

A última viagem

A cabeça da amiga estava encostada nos ombros fortes do rapaz. Durante a viagem de trem eles conversaram pouco e o desconforto era grande. Conversaram sob os olhares curiosos dos outros passageiros. O amigo encarava as pessoas sentadas nos bancos e aquelas que se apoiavam nas barras. A maioria dos passageiros olhava pela janela com a fisionomia inexpressiva, totalmente distante, imerso em pensamentos. Parece que os únicos momentos em que fazemos uma pausa e pensamos sobre nós mesmos é no banho, na privada e no transporte público.
Agora ela está adormecida e é envolvida pelos braços daquele amigo fiel que se apoia na barra e com o corpo suporta o peso da multidão e o dos sentimentos que nutre, mas não revela.
Sua amiga partirá para uma cidade distante, um lugar onde apenas a lembrança chega, que fica entre o céu e a terra. Ela vai morrer em breve e cada segundo é importante para ele.
Aquela cabeça ainda pende sobre o ombro protetor e as mãos da amiga estão aconchegadas no peito daquele rapaz, mão frias e delicadas.
Uma viagem inteira sustentando o corpo frágil em meio aquela massa humana que se aglomera e aquece. O amigo não queria que a viagem terminasse, mas em certo momento o destino vai agir. O trem faz suas paradas e o coração dele bate forte, sabe que a hora do adeus chegará, sabe que precisa dizer que a ama, mas a multidão observa. O condutor anuncia a estação, as portas do vagão abrem-se para aquele coração angustiado e eles saltam. Despedem-se com formalidade e cada um segue seu destino, mas a viagem ficaria marcada na memória daquele jovem como o último dia do que poderia ter sido seu primeiro romance, mas sua garganta ficou seca e ele não disse nada.
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