domingo, 20 de novembro de 2011

Contra a parede

http://www.sxc.hu/photo/676459

A parede tinha uns sete metros de altura por doze de comprimento.
Olhei para aquele obstáculo e avaliei as minhas possibilidades. Será que eu na minha maluquice de criança sou capaz de escalar esse monstro apenas com as mãos e o desejo de aventura?
Como em muitas situações, agi por impulso e enfiei uma das mãos na fenda da parede, depois coloquei a outra um pouco acima, a seguir foram os pés e quando percebi não podia mais olhar para baixo.
Aquela parede da casa do vizinho era feita de blocos e devia ter muito mais idade do que eu. A tinta era desbotada e alguns pedaços foram caindo ao simples toque de minhas pequenas mãos.
Subi três metros e meio, lá embaixo ninguém me espera, nem bombeiros, nem colchões velhos, só a terra firme coberta por entulhos e capim.
Os vizinhos não estão em casa e se eu cair só me encontraram depois de algumas horas. Meus pais estão trabalhando. Sou eu contra a parede.
Cortei o dedo num bloco que se desprendeu e se espatifou no chão. Minha aventura está ficando perigosa. Qual será a força de resistência de uma criança?
São cinco metros agora. Minhas forças estão se esgotando, sou eu contra a parede, não tive medo ao subir, encarei o desafio e não vou desistir. Ou cumpro meu objetivo ou acabo no chão em meio ao entulho. O topo da parede fica próximo da rua, é só chegar lá e atravessar.
Seis metros e meio, estou quase chegando, minhas mãos doem e as pernas fraquejam. As mãos estão machucadas pelas fendas e pelos insetos que moram nelas.
Coloco a mão no topo da parede e num último impulso, antes de minhas forças acabarem, passo do muro para a rua. Descanso ali mesmo, encostado ao muro. Fecho os olhos e adormeço. Foi assim que consegui conquistar o primeiro objetivo de minha vida e daquele momento em diante entendi que nenhum obstáculo, por maior e mais assustador que seja, é intransponível quando acreditamos na nossa capacidade.
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