quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Delírios da Fome


Sai do trabalho e fui até a lanchonete mais próxima, a fome falou mais alto. Depois de comer segui a caminho do metrô e de repente um mendigo com pinta de gringo me abordou. Ele dizia que trabalhava com reciclagem e precisava repor as energias. 

Seus olhos estavam avermelhados e quase não se via a profundidade do azul. Os cabelos loiros e a barba por fazer marcavam o rosto daquele ser humano sofrido que me pedia algo que não compreendia, pois enquanto falava eu seguia meu caminho sem dar atenção.

Mesmo assim, ofereci algumas moedas que estavam no meu bolso, mas ele recusou. Thirty-five cents. Quando percebeu que eu podia compreender suas palavras em inglês deixou de lado a nossa língua nativa. Caminhava por aquelas ruas lado a lado com o estrangeiro. Aquele homem se preocupava comigo até quando ia atravessar a rua e dizia que a minha sobrevivência era a sobrevivência dele. Primeiro pediu comida brasileira, mas depois apelou para os hambúrgueres.

A caminho do Mc Donalds ele viu dois policiais, mas não havia nenhum policial na rua. Ele mencionou algo sobre os missionários africanos e o filme Diamante de Sangue. Aquele homem alegava ser um assassino e proteger planos nucleares para alguma corporação com sede na África do Sul. A partir daquele momento minha vida poderia correr perigo se eu revelasse os detalhes dessa conspiração que envolvia a igreja também. Só podia ser um delírio causado pela fome.

Lá dentro os funcionários do Mc Donalds me olhavam abismados por entrar com um mendigo e ainda por cima entregar o lanche para ele, mas aquele homem só queria algo para comer, apesar de ser um pouquinho exigente e ter optado pelo maior lanche. No final apertei sua mão e me despedi. Voltei ao meu caminho e desejei a ele:

God bless you.

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