sábado, 27 de agosto de 2011

A cozinha da vovó

Bolo de fubá. Dona Manoela trabalhava a massa com colher de pau, era a maneira tradicional de preparar e a mais gostosa, a erva doce que ela colocava na mistura fascinava a neta que dizia:
- Vamos comer bolo com cisco vovó?
A família sentada à mesa da cozinha caia na gargalhada, agora erva doce era cisco?
Toda refeição era preparada com amor, carinho e extremo cuidado, nenhum engraçadinho podia ousar colocar os dedos nos bolinhos prontos ou ser o primeiro a comer o almoço, pois a regra era esperar todos chegarem para que juntos compartilhassem o momento. Depois que terminavam de almoçar as crianças gostavam de ficar andando debaixo da mesa e quase tiravam a avó do sério, mas ela estava no controle da família e principalmente de si mesma.
Após o almoço cada um pegava sua cadeira e ficava em volta da mesa conversando sobre política, religião, novelas, as polêmicas da semana, às vezes alguém trazia um jogo de dominó ou baralho e a conversa corria a madrugada junto com a “jogatina”.
Além da família, as visitas invadiam a cozinha durante a tarde e compartilhavam suas fofocas, receitas, lágrimas, conquistas, a vida passava pelas miçangas da porta e as pessoas abriam seu coração entre uma xícara de chá e outra.
Hoje em dia, quem é que tem tempo de ficar conversando na cozinha com sua família ou amigos? Na correria do dia-a-dia às vezes negligenciamos até o café da manhã, onde estão as matriarcas de pulso firme que tinham a família a seu redor? Elas são raras em nossas grandes capitais, mas ainda existem apesar de tudo. Apesar de tudo o ser humano precisa da cozinha da vovó para sentir que faz parte de algo, para saber que pode contar com alguém além de si mesmo.
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